sexta-feira, 29 de maio de 2009

Portnoy's Complaint

A ler, o já antigo (de 1969) artigo de Josh Greenfeld sobre o fantástico Portnoy's Complaint, de Philip Roth, no New York Times. Eis um excerto:

As Portnoy matures--at least chronologically--he desperately wants to tear off his American-Jewish hair shirt, to let go, to live a life without mother and father, a sex life free and unfettered, without guilt, to be bad in other words ("Because to be bad, Mother," he apostrophizes, "that's the real struggle; to be bad--and enjoy it! That's what makes men of us boys, Mother. . .LET'S PUT THE ID BACK IN YID!"). But instead he finds--or his analyst does--that "neither fantasy nor act issues in genuine sexual gratifications but rather in overriding feelings of shame and the dread of retribution, particularly in the form of castration."

Unforgiven (1993), Clint Eastwood

Confiança

A mão não se abre duas vezes.

Pesadelo

O pesadelo não passa. Danado. Tomar o comprimido para o pesadelo. Não passa. Sempre igual: os olhos abertos e a mão que aperta o pescoço e a voz que sussurra: desiste.

Interpretação

1. Camus diz: «não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos.» És culpado até prova em contrário.

2.Um homem atira-se à água. Ou atiras-te para salvá-lo ou abandona-lo à sua sorte. Os caminhos são dois. Provavelmente, escolherás o pior dos caminhos, por conseguinte, diga-se: os caminhos são dois mas as consequências são mil.

3.Para alcançar a fama, não basta matar a porteira do prédio. É também preciso esperar que mais ninguém se lembre de matar outras porteiras.

4.Os amigos facilmente nos empurram para o suicídio, porém, a verdadeira ameaça vem dos pais, portadores da «palavra-bala».

5.O Senhor precisa de me cortar a cabeça para, a partir daí, me tornar livre. O castigo traz liberdade.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Fechado

A tua vida és tu e os outros, mas os teus interesses não são os dos outros. O que quer dizer que a mão deve permanecer fechada.

Antichrist

Empirismo

O problema dos teus inimigos não é simples: o revólver pertence-te.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Ausente, distante

Um oficial alemão pediu delicadamente a uma velhota que fizesse o obséquio de escolher um dos seus dois filhos para ser fuzilado. A escolha envolve a dúvida. Neste caso, a dúvida é esta: qual dos dois filhos me fará menos falta? Melhor ainda: qual a melhor forma de tornar distante o corpo que ocupa todo o espaço com a ausência?

terça-feira, 26 de maio de 2009

O tempo

Tudo passou, velho, já não volta e não valeu a pena, agora a fortuna vai desmoronar-se e de ti, velho, vai ficar a memória de teres arranjado uma fortuna para nada, por isso agora que deixaste esta pocilga te recordo e o teu destino e morte me comovem, a mim, teu neto predilecto.

- Almeida Faria, A Paixão

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Prisão do Ético



valter hugo mãe escreveu um texto sobre A Prisão do Ético no PNETliteratura que me fez corar de contentamento.

Método Jack Nicholson



Nicholson had had a problem with premature ejaculation, a fact he generously shared with his fans via Playboy. "Cocaine is 'in' now", he said, "because chicks dig it sexually. While it numbs some areas, it inflames the mucous membranes such as those in a lady's genital region. If you put a numbing tip of cocaine on the end of your cock because you're quick on the trigger and need to cut down on the sensation, I guess it would be considered sexual aid.»

- Peter Biskind, Easy Riders, Raging Bulls

Pugilista 2

O murro acerta em cheio no rosto do pugilista, deixando-o colado ao tapete. O pugilista não se levanta. Prefere ficar deitado à espera que lhe venham dizer: perdeste. Não se trata de desistir mas de lutar muito contra uma força muito superior à nossa. Compreenda-se que esmurrar uma rocha só traz dores a quem esmurra. O pugilista está à beira da derrota, ainda tem vários segundos para se levantar, mas não se moverá. «Dá-me mais um murro.» O pugilista acredita que, se levar mais uma pancada, ficará inconsciente e, por conseguinte, impossibilitado de pensar que ainda se poderia levantar caso tivesse forças. O sono apaga a vergonha.

Pugilista

O pugilista desmaia, entra num mundo outro. Volta à infância. O pai: «Serás campeão. Treinarás para os troféus. Mentaliza-te. Ganhar sempre, custe o que custar. Não há limites.» Para cumprir o desejo do pai, a criança não pôde brincar. Só o boxe. Acertar na cara do adversário com pujança. O campeão desmaiado no ringue.

sábado, 23 de maio de 2009

Midnight in the Garden of Good and Evil (1997), Clint Eastwood

Artigo meu no Jornal de Letras

Acaba de sair o meu texto sobre o mais recente livro de Luís Reis Torgal no Jornal de Letras.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O real

O sábio aconselha-te a escolheres um bom caminho. Mas escolheste mal, sofres, sentes-te preso ao Inferno. Sacrificaste a tua vida em vão. Não há nada para além dos sonhos, das malditas ilusões. As meninas que passam na rua e que ganham matéria fecal nas pernas e no cabelo. E a vaidade que se torna estúpida, que deixa de fazer sentido quando o fígado escurece com o cancro preto. Põe os óculos e enfrenta o cadáver no funeral. O sonho americano. O homem que cresce a pulso, com trabalho, com esforço, com dedicação. O corpo envelhece. O murro que partia a cara dos inimigos perdeu o vigor. O corpo cai. O sábio diz: segue os melhores caminhos, chegarás longe se os seguires, escolhe uma boa escola, lê os melhores livros, casa-te bem, compra uma boa casa, chegarás longe se seguires as minhas recomendações. O sábio é deveras conhecedor, ai se não é, o mentiroso do sábio. Lê os melhores livros, tira os melhores cursos. Atira-te ao rio. Pega na faca e espeta-a no peito. Isto não vale a pena. És novo? Escuta: não vale a pena. Não há mistérios. Não há a porta do quarto da infância que espera que a abramos um dia. O que há é isto: o nojo na barriga. A gastrite. Submete-te à verdade: as roupas que vestes não te safam da nuvem negra que te come os pulmões. Prosta-te perante as evidências. Vamos no elevador que nos levará ao andar menos um, temos esperança de que ele pare no primeiro andar ou no rés-do-chão, mas sabemos que a máquina parará apenas no menos um. No debaixo do chão. Esgatanha o caixão. As luzes acendem-se ao longe. A esperança. As luzes acendem-se ao longe e logo se apagam. Não foram feitas para durar. Apalpa no escuro. Tenta caminhar sem ver.

Jaula

Como é viver fora da jaula?

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Deixa-me, caçador

O animal perseguido corre mas não escapa às garras do caçador que o persegue. Encolhe-se dentro da toca. Ao caçador basta esticar o braço para puxá-lo. Não corras, animal, que foste apanhado. Quantas vezes precisa o animal de fugir? O oxigénio fora dos pulmões. Vem energia, faz-me descansar para continuar a correr. O caçador vem a caminho. O furacão. Persegues-me, caçador, e não sei que possa fazer para me deixares em paz. O caçador aproxima-se. Ágil, o vilão. Não me apanhes. Escondo-me na toca. O buraco de lama. Não há hipótese. Escapa-te. Perdi o autocarro mas não me culpes por tudo. Aquilo que se perdeu não foi menos do que aquilo que se ganhou. Ganhou-se muito. Uma vitória de cada vez. Deixa-me ir, caçador, não te voltarei a desiludir. A tua mão no meu lombo. Magoas-me. Os erros do passado não foram esquecidos. As consequências. Funestas consequências. Castiga-me. Bate forte. O caçador cada vez mais perto. Bicho parvo, esfolo-te vivo. O aperto na gravata. Os momentos bons não existem. A toca escura e os dedos que descem ao pouco até tocarem na testa da vítima. O castigo. A justiça apanha-te sempre, e é dura, tão dura, que te bate como se fosses imune a qualquer dor. Morde as ervas, morde-as, bicho feio. A culpa vem, acerta-te em cheio. O caçador com a presa degolada. O sacrifício de um é a salvação de todos. A família janta.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A carta dela

As tuas cartas não me têm chegado. Se me escreves, não te leio. Acordo mais cedo para esperar um carteiro que não me traz nada. O teu silêncio preocupa-me. O que ainda me vai esperançando é o facto de ainda cá não terem vindo anunciar a tua morte. Enquanto cá não vierem, acreditarei que continuas vivo. Mesmo que cá venham, não acreditarei. Há seis anos, quando te disse que eras o tal, não exagerava. A possibilidade de estares morto não é real. Dizerem-me que morreste é como jurarem-me que amanhã não haverá noite. Sei que virás. Não pertences a nenhum outro lado. Chegará o tempo de esquecer e de recomeçar. Mais cedo do que tarde bater-me-ás à porta com montes de histórias na sacola. Mas não escreves. Não recebo as tuas cartas. A tua língua é a do silêncio. Tenho pensado. Se regressares amputado, inválido, gastarei o resto dos meus dias a cuidar de ti. O que me agonia não é isso. As saudades são duras. Sofro imenso. Ganho cabelos brancos. Rugas. Eu sei, sou nova, mas o sofrimento é monstruoso. Achar-me-ás feia quando chegares?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Nº 14 Minguante



Já está no ar o último número da revista Minguante, com a minha entrevista, o meu texto e um artigo sobre o meu livro. Tudo motivos para lerem a revista.



O Velho

O Velho corre de um lado para o outro, sem saber para que lado se virar, como se fosse um ratinho branco de laboratório a querer fugir da experiência que lhe está a ser impingida pelo cientista. As bombas caem dos aviões. As paredes da casa desmoronam-se. O fumo espalha-se pelo ar. O Velho engole poeira, tenta proteger as vias respiratórias com a camisola, olha para a casa que vai abaixo. O tijolo que se parte arrasta para o fundo do mar toda uma história. O passado que desaparece, as memórias que se começam a perder, as fotografias que ficam cada vez mais despovoadas de paisagens. As paredes são agora montes de entulho. Deixou de haver alguma coisa para lembrar. Ajoelhado, sentindo pena de si próprio, o Velho cobre a cara com as mãos, pensa em todos os seus sonhos, em todos os projectos da juventude, e grita: «O fim é agora.» A bomba ainda não lhe caiu em cima mas o Velho já se encontra de braços abertos à espera do explosivo que lhe trará paz.

Ele não chega

A Mulher dirige-se para casa após ter comprado um livro na maior livraria da cidade. Gastou mais dinheiro do que queria. Por esse motivo, e ao contrário do que é habitual, não entra no café onde costuma lanchar. Não se pode dar ao luxo de esbanjar. A Mulher pára para observar uma montra de uma loja que exibe uma fotografia de um casamento. «Como a noiva é bela», pensa. Desata a chorar. Chora com saudades. A noiva fá-la lembrar-se de si própria num tempo alegre. A Mulher retoma a caminhada. Pensa nos noivos da montra. Entra no mundo do devaneio. Um vestido de noiva ensanguentado. Um vestido branco manchado de sangue. «O noivo demora a regressar», murmura. «Foi para a guerra e tarda em voltar.» Os meses passam mas Penélope continua a fazer e a desfazer o seu tapete.

GMT 2

A minha questão prende-se com o facto de as tábuas, no geral, se soltarem e desgastarem com muita frequência. E o chão do mundo não é outra coisa, senão isto: um chão que se pode soltar.

- Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton

GMT 1

Encontrei algo que revelava uma ausência. A ausência é presença noutro espaço.


- Gonçalo M. Tavares, Breves Notas Sobre as Ligações (Llansol, Molder, Zambrano)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Fingimento

A fraqueza pode ser uma força quando dita por ti.

Crescimento

Não é verdade que cada um nasça com um destino traçado. O que acontece é isto: a partir de certa altura, começamos a perceber que há um castigo diferente para todos.

Impulsos

O homem feliz é aquele que, controlando os seus impulsos, vive abaixo das suas possibilidades.

Tijolo, casa

Cada livro é um tijolo. A mão é uma divisão dessa grande casa que é o corpo.

Miséria e vaidade

Em nós só veremos miséria e vaidade.

Entrevista na Minguante



A Minguante entrevistou-me a propósito de A Prisão do Ético. Eis o resultado.

Fraca condução

Nada nos livra dos monstros quando o que nos conduz é o medo.

Reclusão negada

Miserável é aquele que não se pode esconder num canto qualquer a ler.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Conhece-te

Lês para aprenderes a bem viver e a bem morrer.

Mira

Os nossos projectos extraviam-se porque não têm direcção nem ponto de mira. Nenhum vento serve àquele que não tem ponto de destino.

- Montaigne, Ensaios

INLAND EMPIRE (2006), David Lynch

Montaigne

A maneira mais comum de aplacar a fúria dos que ofendemos é pela submissão mas, às vezes, os inimigos gostam de quem responde com força à força.

Amordaçar o animal

O cão não é um computador. O dono solta-o no meio da multidão, o cão corre, esfrega-se nas pernas das meninas, rebola na relva. Ao ouvir o assobio, regressa à coleira do seu senhor. Veja-se, porém, que o cão pode não obedecer ao dono. Pode, simplesmente, revelar-se assassino, atacar a perna cheia de carne. O cão não é um computador. Se for, coloque-se o açaime na máquina.

Enlaço na morte

A morte era um desafio, uma tentativa de comunicar, quando as pessoas sentem a impossibilidade de alcançar esse centro que misticamente lhes foges. O que nos é próximo, retira-se; desvanece-se o enlevo; fica-se sozinho. Na morte dá-se uma espécie de enlaço.

- Virginia Woolf, Mrs. Dalloway

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Minguante

Na Minguante, fala-se sobre A Prisão do Ético.


Erro 2

Até no dia em que se viu que havia um erro se pode concluir que a frase que disse «oh, errei» é um erro.

Erro

Através da releitura se compreende que um homem possa passar um ano a errar.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Dicionário do Diabo



Boca, n. No homem, é a porta da alma; na mulher, é a saída do coração.

Liga, n. Uma fita elástica que impede uma mulher de sair das suas meias e devastar o país.

Nascimento, n. O primeiro e o mais terrível de todos os desastres.


- Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Saudades do futuro




Nunca sabemos qual é a última vez que estamos com uma pessoa amada (e é pouco patriótico lembrar que, apesar de tudo, Deus dá-nos uma boa ideia) e talvez seja essa incerteza que nos leva a despedirmo-nos constantemente dos que amamos. Aposto que portugueses e brasileiros ouvem o Besame Mucho de uma maneira diferente. Para nós, o cantor não está a ser engatatão e a pedir que seja beijado como se fosse a última vez. Não - para nós, pode bem ser a última vez.

- Miguel Esteves Cardoso, A Minha Andorinha

Evidência

Não, não vale a pena.

domingo, 3 de maio de 2009

Loucura

No fim, D. Quixote perdeu a loucura e a vontade de viver. A irracionalidade que lhe permitia lutar em nome de princesas imaginárias era a mesma que o afastava da doença.

Vencido

Vencido pelo adversário, D. Quixote concluiu que, por vezes, mesmo que cheio de força, um homem vê-se obrigado a caminhar em silêncio.

sábado, 2 de maio de 2009

Paga

Os teus erros serão a tua vergonha.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dou-te o guarda-chuva






Uma criança de sete anos pode fazer tudo. Chega tarde a casa por não ter sentido de responsabilidade. Rasga as roupas a brincar no rio por não saber como manter o tecido imaculado. As meninas ainda não estão na idade de saber o que é o pudor. Brinca-se aos médicos e aos enfermeiros. A mão do rapaz não se coíbe de apalpar a nádega da rapariga. A nádega ainda não é uma nádega de mulher. É um prolongamento do berlinde, de uma maneira de brincar. A época da inocência é muito liberal. Todos os sonhos são possíveis. O corpo da menina é uma extensão do jogo da apanhada, das escondidas, dos polícias e ladrões. Chega-se à mesa com as unhas sujas, com as calças marcadas pela bola enlameada. O pai diz: «Vai-te lavar.» A torneira de água quente deixa cair o líquido que livra a pele dos micróbios. Os malvados desaparecem. A criança regressa à mesa e depara-se com um prato de sopa de legumes. Torce o nariz. Recusa-se a engolir a refeição que tanto trabalho deu à mãe a confeccionar. «Come, se não queres ficar de castigo durante duas semanas», avisa o pai. A contragosto, a criança enfia a sopa no estômago, e jura que, apesar de o obrigarem a comer o que não quer, ainda reserva para si o direito de não sentir o sabor da comida. «Não hei-de tocar com a língua na sopa», pensa. A criança pode ser casmurra porque está na idade de o ser. Os adultos perdoam-lhe tudo. A infância oferece a beleza, a pureza, a felicidade e a eternidade. Tudo se esquece porque a criança é bonita e promete ser inteligente. A criança acorda de manhã e diz à mamã que quer ir à praia, que quer viajar, que quer os três meses de férias do Verão para sempre, que quer uma camisola nova, que quer um irmão. A mãe promete o universo: «Tudo, meu filho, para que sejas feliz, para que não te cresçam rugas na testa como me cresceram a mim. Olha para as minhas rugas, tão feias que são. Tu não terás rugas, meu príncipe, meu futuro cirurgião, médico, advogado. Para ti só o melhor, nada mais do que o melhor.» A criança sente-se protegida. Dá para recusar a sopa do jantar quando se tem sete anos. Recusa-se a salada. O tomate é amargo. A cenoura traz alergia. Só se come o bife. Saborosa, a carne grelhada aconchegada na barriga do menino. Os sete anos oferecem a possibilidade de sonhar. Dá para ser cirurgião, atleta, condutor de naves espaciais. Há uma eternidade para sonhar. Três semanas para pensar nas palavras que se poderiam dizer mas que acabarão por ficar guardadas na imaginação. A menina vai dizer que não. O menino quer namorar com ela. As palavras na gaveta. A infância vive no templo dos deuses. A imortalidade. «Gosto de ti para sempre.» As horas não se esgotam, os desejos multiplicam-se por números infinitos. Um menino de sete anos pode ser parvo. Ninguém o levará a mal por ser parvinho. «Coitadinho, é tão inocente.» A mamã e o papá, quais ursos na caverna, protegem o filhote da intempérie. «Não apanharás frio, meu pequeno, nem que sejamos obrigados a roubar. Não te preocupes, pequeno, não te faltará nada.» A criança é mimada. Não come a sopa, brinca com os amigos até às horas que quer. Mas agora há a guerra, o mundo cruel onde os adultos se matam uns aos outros para sobreviverem. Agora, a criança é crescida, passa fome e não sabe da mãe.

Carrascos

Carrasco I: O que haveremos de lhe fazer?

Carrasco II: Por mim, matávamo-lo.

Carrasco I: Evitaríamos burocracias.

Carrasco II: Matemo-lo.

Carrasco I: Não consigo.

Carrasco II: Porquê?

Carrasco I: O tipo parece inofensivo. Aquele aspecto raquítico.

Carrasco II: Já não o queres matar?

Carrasco I: Prendamo-lo.

Carrasco II: Também não o queria matar.

Feira do Livro

Longe e perto

É precisamente por a onda vir longe que deves começar a fugir. Se ela já aqui estivesse, deverias começar a lutar.

Honra

D. Quixote disse: «Um homem pode ser rico e honrado através das armas ou das letras. Eu tenho mais armas do que letras.»