sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Bonnie and (1967), Arthur Penn

Confiança

Eu digo que, mais tarde, se lembrarão de mim.

- Safo, O desejo

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Respira

Dói, dói muito, ser chinês, querer subir a montanha e não conseguir, não ter força suficiente para esmagar com potência as incertezas provocadas pela natureza. Estar longe, muito longe, tão longe, e não ter o jeito para atravessar a montanha sem ser com a vista. Quero sair daqui, peço com toda a veemência: se alguém me estiver a ouvir, tu, meu Deus, meu castigador, meu mais que tudo, se me ouves, se para ti valho alguma coisa, por favor, imploro-te, rogo-te, ordeno-te, tira-me daqui, tira-me deste pântano, desta miséria, livra-me do mal, de todo o mal, meu patrono, meu dono, meu senhor, livra-me dos meus males, dos meus pecados, das minhas angústias, da minha parvoíce, do nojo que sou, livra-me da peçonha que criei em mim e que se não descola por nada, peço-te com muito fervor, peço-te com toda a fé, salva-me, manda um anjo e salva-me, não me deixes morrer aqui. Eu, pobre pateta, alarve, imbecil, ignorante, imploro-te de joelhos: pára de me impor castigos, deixa de me humilhar. Os meus pecados foram lavados. Diz. Perdoa-me, se é de perdão que preciso. Desce a mim e diz que a minha parte negra foi expurgada, que estou livre, que posso acordar e ser feliz.

Foi Safo quem escreveu:

E a mim tu esqueceste-me..

Somas, mais somas, mais somas

Lá por o corpo se ter habituado ao sofrimento, não se deixe de recear a dor.

Howl

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Aguenta, aguenta, aguenta

O corpo completamente desnorteado e a mente embrenhada no sonho do paraíso. Ela debaixo dos cobertores a brincar com a almofada, a sussurrar palavras carregadas de sentimento, a falar da eternidade, a despir-se, a encaracolar o cabelo com o dedo indicador. O corpo desfalece, seco, podre, enquanto a mente atravessa oceanos, se transforma em asa-delta e voa até à Gronelândia, de volta aos tempos da alegria. Ela no chuveiro a discutir a problemática do futuro, a garantir que viverá mais do que ele, porque as mulheres vivem mais, e ele a fazer a barba de tronco nu. Eles de mãos dadas à chuva, ele aos gritos, ela a fazer beicinho. Tão longe do campo de batalha, aquela fêmea, e tão presente. Os pés inchados, espapaçados, e o pensamento a trabalhar como se tivesse acabado de se apaixonar. O desvario não pára: a imagem dela ocupa todo o espaço. Casas comigo? Caso, caso, nem se pergunta. Não me abandonas? Não, claro que não, que pergunta mais parva. E, agora, a distância.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fezes intelectuais

É uma grande pena que se não possam ver os intestinos intelectuais dos escritores para que deduzamos o que comeram.

- Mark Twain, Jornal de Letras e Artes, Abril de 1968, p.14.

Onda de assassinatos

Não consigo dar dez passos em Lisboa sem encontrar um pombo morto.

Esconder com o lenço

A mão que guarda a força é a mão que finge ser débil. É por isso que tantos se espantam por sentirem um tornado no lugar do sopro.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Viver do vento

De A Arte de Ser Português, de Pascoaes, apreciei a parte em que se diz que os portugueses têm mais inclinação para poetizar do que para raciocinar. E gostei por achar que só assim se explicam as aberrações que este país produz todos os dias.

O Acossado/ À Bout de Souffle (1959), Godard



O beijo é traiçoeiro nos filmes de Godard. Judas é o beijo. Por isso é sempre tão mal dado.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Broken Flowers

«Só se for agora, temos os bilhetes na mão, zarpamos logo de manhã para o outro lado do Atlântico», leu ele, dez anos depois, sozinho e ainda a sofrer com o que não aconteceu.

Virtude






A virtude reside naquela que apanha os bocados que restam de mim após cada queda. E esta tem sido dada todos os dias e, ainda que nem sempre se varra para o lixo o chão sujo, a palavra doce está sempre presente. A virtude também mora nos actos daquele que recupera da queda, por saber dar valor a quem gastou horas, dias, séculos, anos, milénios, a tentar colar peças umas às outras, mesmo quando não valia a pena. E sabe Deus que quase nunca valeu a pena.

Texano

É por ter partido o queixo a jogar com meninas na 1ª classe que me sinto um cowboy durão, de feno no dente, a arrotar para o lado.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Curto e longo

A vida é longa porque foi totalmente ocupada pela dor e pela infelicidade. A vida é curta porque apenas dez de setenta anos foram bem vividos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Nada presta





Jack Kerouac:
«Before we go, Doctor Williams, do you have any wise words for us?»

William Carlos Williams: «There's a lot of bastards out there.»

(extraído de Allen Ginsberg: a biography, de Barry Milles)

O regresso da vontade



O soldado põe-se de pé e dá os primeiros passos no longo caminho que o deve levar para casa. É loucura julgar que o desejo poderá ser maior do que desastres como a ferida, a doença ou o disparo da arma. Não pode a ratazana fugir depois de ter sido engolida pela anaconda. Mas a vontade é grande, aumenta a cada passo dado. «Estou a chegar…», diz. Sob o Sol que domina a manhã, movimenta-se a máquina pesada, a ave sem asas, querendo realizar uma das poucas utopias plausíveis para um condenado: a salvação. Ainda que a parede que separa o indivíduo da liberdade tenha quilómetros e mais quilómetros de altura, ele aguentará firme, fervoroso, de dentes cerrados.

O soldado tropeça, cai, rebola, volta a levantar-se, grita para que a força não se deixe levar pela derrota, volta a tombar, arrasta-se e pensa: «Estou a chegar…» Vêm palavras divinas: «Abre os olhos e vê.»

Legítima ambição, a de recusar a desistência, principalmente no momento em que a vitalidade regressa ao tronco de madeira que se julgava apodrecido pelo Inverno. A ilusão não se extingue enquanto houver líquido quente a correr dentro das veias

Sem ar

A aranha deixou-se envolver em mil trabalhos e agora não sabe para que lado da teia se levar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Vestir o guarda-chuva

Ela sabia que ele só gostava de chuva, por conseguinte, não saía de casa no Inverno para não o ver.

Amor de Perdição (1978), Manoel de Oliveira



A morte é a felicidade.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aprender a ser mulher



A sensualidade que se exigia nos anos 60 e 70 para a mulher portuguesa era muito diferente da que se exibia lá fora. Enquanto a mulher estrangeira era melhor apreciada nua, a nacional era ainda uma senhora de família a aprender o básico dos básicos da feminilidade, como se depreende de recomendações como esta:

«Uma mulher deve tratar das unhas pelo menos uma vez por semana; fará parte da sua rotina, tal como tomar banho ou lavar a cabeça» (Século Ilustrado, 18-7-70, p.39)

O primeiro



Que rico consolo são as palavras de Augusto Abelaira (1926-2003) para quem vai começar:

«Tornei-me escritor em circunstâncias deveras caricatas: várias editoras se recusaram a editar o livro; uma porém reteve-o durante dois anos com a promessa de que o editaria; mas como se não decidia, resolvi fazer a edição por minha conta» (Notícias da Amadora, 23-3-68. p.5)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Cortez The killer

A chuva eleva os mortos

A chuva cai, transformando cadáveres incendiados pelo fogo em pó, aniquilamento, humilhação, luto, cinzas. A memória dos finados, que pouco tempo antes se escondia por detrás de roupas queimadas, de pele carbonizada, eleva-se no ar em forma de fumo, ocupa todo o espaço ilimitado em que se movem os astros. Todo o céu é ocupado pela imagem de cada um dos defuntos. Nunca ninguém se lembrará de prestar homenagem a estas criaturas arruinadas por causa externa. Que restem algumas frases: os vossos dias gastaram-se, não voltarão a casa. Não abraçarão o pai e a mãe, o cão e o gato. O namoro prometido ficou por chegar, o mar revolto numa tarde de Inverno será visto por outro, o quentinho do quarto quando a água gelada bate no telhado ficará reservado a novas almas, não se apaixonarão novamente. Há-de haver alguém que passeie o cachorro que espera pelo dono. O passado está aqui, à vista de todos, a jurar que, por mais que se lhe peça para voltar, não acederá a clamores. Grandes e valiosos campeões de categoria inferior, o vosso interesse pelos destinos da pátria trouxe-vos o fim. Que as aves furadoras de nuvens vos aplaudam e vos transportem para uma realidade melhor.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Orgia Literária


O meu segundo texto no Orgia Literária tem como título «Quando a imaginação só acompanha a realidade» e anda à volta de um livro de George Orwell.

Explicando finais

Uma relação de amizade pode acabar com um simples pedido negado, como um não a «emprestas-me certo filme?». Se tão pouco consegue tanto, nem vale a pena falar sobre traições.

Homem de sonhos

Se eu disser que já lá estive, ninguém acreditará na minha palavra, por conseguinte, também eu deixei de acreditar que lá estive, ou que lá quis estar, ou que ainda lá vou estar.

Marcello

Os portugueses são uns tipos muito cheios de fé quando esperam que um pai de quatro filhos e avô de doze netos faça uma revolução.

Significados

Fé: Quando se perderam as razões para acreditar em algo e, ainda assim, se persiste em múltiplas tentativas de concretização de determinado objectivo.

Fé 2: Tentar pôr um automóvel sem motor a trabalhar.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sanita

Caiu dentro da sanita e nunca mais de lá soube sair sair .

Hudson



Pelos vistos, Deus tem cerca de nove anos, vive em Manhattan, mesmo ao lado do rio Hudson, fala inglês e acabou de salvar cento e cinquenta pessoas da morte.

Paranoid Park (2007), Gus Van Sant

Exorcismo

A dor um dia sairá, mas será tarde, irremediavelmente tarde, porque nem eu nem tu nem ninguém conseguirá ser feliz.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Dos saltos

À meia-noite e quatro, hora emblemática para ele, enfiou o laço de corda ao pescoço e, beijando a fotografia da mulher que o deixara a sofrer catastroficamente anos antes, enforcou-se.

1000

Numa outra vida, disseram-me «assim também eu...» por ter festejado mil posts de blog. Pois, agora que já passei dos mil neste, sinto que deveria não ter nenhum.

Do egocentrismo

Era tão egocêntrico que, para começar a ler, precisou de escrever os livros primeiro.

O Meu Tio (1958), Jacques Tati



O meu problema com as comédias é o seguinte: dá-me sempre para a tristeza. Se envolver velhos e crianças piora.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Mary Hopkins - Those Were The Days My Friend

O poder dela

Ele construiu-lhe uma casa mais resistente do que o aço. Ela derrubou-a apenas com um «não».

Sem mais espaço para o fogo

«Por que não arranjas mulher?», perguntou-lhe o amigo. Ele limitou-se a mostrar as mãos cheias de chagas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O avião poderia cair



Houve um tempo em que o romantismo era possível. O camponês olhava para o céu pedindo uma laranja e ela aparecia-lhe no bolso quase roto das calças. Um imberbe pedia uma princesa e tinha-a. Sentava-se na relva com ela, beijando-lhe as pernas, os pés, as bochechas e os lábios. Os abraços sabiam a algodão doce a bater no palato da menina. A música saía do gira-discos, obrigando os amantes a dançarem, a apalparem-se, ele com a mão esquerda na nádega, ela agarrada a uns ombros de gigante. O som do aparelho fazia com que, deitados nus num tapete, um homem e uma mulher trocassem palavras que ficavam para toda a vida a ressoar nos tímpanos. Um vamos casar que o tempo foge ou um deixa-me abrir a janela para gritar a todos o que aconteceu esta noite. Os dentes dele na língua dela. O avião nos céus a largar os mísseis. Os amigos como ratos na trincheira.

A lava movimenta-se






O soldado encostou-se a uma árvore. Não tendo bateria recarregável, a carne em decomposição consegue ser mais frágil do que uma formiga a tentar fugir da sola do sapato. A perna infectada pelo ódio de homens contra outros homens estava prestes a explodir. Estatelou-se no chão como se fosse um piano atirado do topo de um arranha-céus. Apareceu o pânico. O ferido quer resistir mas não dá para continuar a ser pedra depois da pancada do martelo. Cobertas de poeira, as mãos do soldado procuraram um cantil de água inexistente mas, não o encontrando, começaram a tremer. Pegou no revólver. Muito debilmente, desafiou-o com o olhar. Enfiou-o na boca com o dedo a tocar no gatilho. «Vou morrer, vou morrer», pensou. A lava movimentava-se no centro da Terra.

300 (2006),Zack Snyder

domingo, 11 de janeiro de 2009

Moshé Dayan



Os melhores guerreiros são os piores amantes. Que o diga a israelita Ruth Dayan a propósito de Moshé Dayan (1915(1915-05-20)-1981): «Se ele fosse um bom marido talvez não fosse um bom soldado» (in Diário Popular, 12-10-69).

The Godfather III (1990), Francis Ford Coppola

Da velhice

Quanto mais doente, mais sábio.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Queda livre

Com muita fé em Deus, atirou-se à queima-roupa de um avião, gritando: «Guardem o meu pára-quedas para a próxima viagem.»

Malcolm X (1992), Spike Lee

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A dureza a sair



O soldado estava deitado no chão. Baleado numa perna, cheio de arranhões no corpo, com a cara a arder de sede, de fome e de dor, só conseguia pedir ajuda a um céu habitado por mortos. Por mais vontade que o cérebro tivesse de ir para casa, o corpo não se movia. E a morte começava a aproximar-se. A palidez, o raciocínio a transferir-se do real para o sonho, a história de dois decénios em retrospectiva, o cheiro do perfume da mulher no nariz a fazer cair uma lágrima do olho para a face surrada. Começa-se a pensar no fim e, de repente, aparece uma voz que sussurra: «Torna-te duro, sobrevive, morde a mão mas não te deixes levar pelos demónios. Pensa na resistência: resiste, resiste, volta para junto de quem te pertence.»

Buracos em mim para saber como morres

É pelo tiro que nos dão que corrigimos a nossa própria pontaria.

- Millôr Fernandes, Pif-Paf (Diário Popular), 10 de Abril de 1968

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Todos os dias



Aqui.





quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Aguenta, pedra

Não penses que, por teres perdido ontem, não perderás amanhã. O futuro chegará com mais tristeza do que alegria, com mais dor do que saúde, com mais pânico do que calma. Andamos em cima deste colchão aos amassos, a trocar saliva, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, um de nós ficará sozinho. Ninguém disse que vinhas para este planeta para ganhar. No dia em que te deram os parabéns por teres destruído um exército, deu-te vontade de chorar escondido debaixo dos lençóis. Por que te dói tanto acordar todos os dias? A faca está na mão, mata-te, rasga as veias dos pulsos, espeta o punhal no peito e desaba num rio de sangue. O martelo está na mão. Acerta na nuca, acerta, vá lá, não falhes, não dês esse desgosto a todos aqueles que te admiram. Massaja o osso com paciência e liberta o ódio de metal. Toma os comprimidos que acabam com os pensamentos tristes e desaparece, esconde-te debaixo da cama, que é aí que se sofre em segredo. Procura a mamã e volta a ter quatro anos. Estás a perder o tempo de ser feliz (finge que essa possibilidade existe), de sair da prisão, de partir as correntes. Estamos sentados numa cama à espera que nos chamem para o julgamento final. E a sentença virá: martírio eterno para os dois. E o inferno trará o seu sabor: o túnel vermelho, coberto de chamas, a queimar a carne, a querer sufocar. Quando o Diabo chegar, não nos saberemos esconder e seremos apanhados pelo fogo que tudo transforma em cinzas. Acabaremos transformados em pedra, na cova, agarrados um ao outro, confundidos, sem nos conseguirmos separar da terra e das larvas.

Uma paixão louca

Um paixão desbragada, daquelas que dão vontade de rasgar a camisa no meio da rua, numa carta sentimental de um leitor d' A Mosca, suplemento do Diário de Lisboa, datada de 23 de Maio de 1970:

Mas que confusão! Estou a olhar para a minha mulher e não vejo a cara dela. Vejo a carinha linda da empregada da tabacaria do café que frequento...! Sinceramente, Edwiges, dá-me um conselho para que tudo volte à normalidade! Estou farto desta aventura - porque é uma aventura, uma traição, sei lá o que é!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sofá, máquina de café, cama

Talvez a realidade seja mesmo só isto.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Atirar-te para o lago



Sangue do meu sangue, carne nos meus ossos, dar-te-ia este mundo para que nunca pensasses seguir um caminho diferente do meu. Conheci-te num tempo no qual a inocência se superiorizava à inteligência. Éramos os dois pequenos, alegres e não menos idiotas. Corríamos pela floresta sem medo do lobisomem ou da mula de sete cabeças. Havia o mito do assassino negro do machado, e ao lado dele uma infinidade de monstros, mas nós corríamos sempre a toda a velocidade. Agora, aqui estamos sentados um ao lado do outro, a tentar perceber quem perdeu e quem ganhou, ou quem perdeu menos, já que tudo se resume a pequenas e grandes derrotas. Até as vitórias, meu amigo, a pouco sabem, acabam por ter o cheiro da queda. Houve um dia em que disseste que querias ser famoso. Mas foste para Direito e tornaste-te advogado, ou lá o que é essa tua profissão, que nunca se percebe muito bem aquilo que fazes para sobreviver. Vou fechar os olhos para entender como a tua vida se transformou (ou não) numa vitória. A tua cara diz que não vives bem por debaixo da gravata verde alface. A frustração está por todo o lado. E não é só a falta de comida, de livros, de mulheres, de carinho, de sexo. A derrota não é só isso (os meus encómios pela conclusão). É também ter tudo e sentir que não se tem nada. Ou não ter nada e alimentar a ilusão de ter algo impossível, como a felicidade. Morre-se. O corpo transforma-se em fezes, meu mais que tudo, meu irmão, morremos, desaparecemos. Depois de toda a luta, vem o precipício, a recta final. Acabas estendido num caixão florido, com maquilhagem a cobrir-te o verde da face e as larvas a prepararem-se para saírem do nariz. Não obstante toda a tristeza, tínhamos um passado, uma história para contar aos netinhos. Recordas-te do ano em que assaltámos um banco? Que belo espectáculo se reproduziu em nosso redor. E quando tentámos fazer explodir o mar com uma bomba atómica? Fomos perseguidos por aviões e por agentes secretos mas, espertos como raposas, escondemo-nos debaixo da cama, até que a mãe nos chamou para lanchar. Aconteceu tudo há tanto tempo e parece que ainda nada desapareceu da memória. Meu mano, nada fugiu da caixa das ideias. Para quê esta traição, esta facada nas costas, este golpe vil e cobarde que é bater e fugir? E como pensar que te poderia perdoar sem ver o teu corpo a boiar no lago?

Jonas invertido

Se não te perdoei a ti, que eras tudo para mim, por que deverei voltar a perdoar alguém?

Jonas

Se te perdoei a ti, que nada valias, por que não perdoar a todos os outros?

The Godfather II (1992); Francis Ford Coppola



Mantém-te próximo dos teus amigos e ainda mais próximo dos teus inimigos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

The Godfather (1971), Francis Ford Coppola