sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Respira
Somas, mais somas, mais somas
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Aguenta, aguenta, aguenta
O corpo completamente desnorteado e a mente embrenhada no sonho do paraíso. Ela debaixo dos cobertores a brincar com a almofada, a sussurrar palavras carregadas de sentimento, a falar da eternidade, a despir-se, a encaracolar o cabelo com o dedo indicador. O corpo desfalece, seco, podre, enquanto a mente atravessa oceanos, se transforma em asa-delta e voa até à Gronelândia, de volta aos tempos da alegria. Ela no chuveiro a discutir a problemática do futuro, a garantir que viverá mais do que ele, porque as mulheres vivem mais, e ele a fazer a barba de tronco nu. Eles de mãos dadas à chuva, ele aos gritos, ela a fazer beicinho. Tão longe do campo de batalha, aquela fêmea, e tão presente. Os pés inchados, espapaçados, e o pensamento a trabalhar como se tivesse acabado de se apaixonar. O desvario não pára: a imagem dela ocupa todo o espaço. Casas comigo? Caso, caso, nem se pergunta. Não me abandonas? Não, claro que não, que pergunta mais parva. E, agora, a distância.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Fezes intelectuais
- Mark Twain, Jornal de Letras e Artes, Abril de 1968, p.14.
Esconder com o lenço
domingo, 25 de janeiro de 2009
Viver do vento
O Acossado/ À Bout de Souffle (1959), Godard

O beijo é traiçoeiro nos filmes de Godard. Judas é o beijo. Por isso é sempre tão mal dado.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Broken Flowers
Virtude

A virtude reside naquela que apanha os bocados que restam de mim após cada queda. E esta tem sido dada todos os dias e, ainda que nem sempre se varra para o lixo o chão sujo, a palavra doce está sempre presente. A virtude também mora nos actos daquele que recupera da queda, por saber dar valor a quem gastou horas, dias, séculos, anos, milénios, a tentar colar peças umas às outras, mesmo quando não valia a pena. E sabe Deus que quase nunca valeu a pena.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Curto e longo
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Nada presta

Jack Kerouac: «Before we go, Doctor Williams, do you have any wise words for us?»
William Carlos Williams: «There's a lot of bastards out there.»
(extraído de Allen Ginsberg: a biography, de Barry Milles)
O regresso da vontade

O soldado tropeça, cai, rebola, volta a levantar-se, grita para que a força não se deixe levar pela derrota, volta a tombar, arrasta-se e pensa: «Estou a chegar…» Vêm palavras divinas: «Abre os olhos e vê.»
Legítima ambição, a de recusar a desistência, principalmente no momento em que a vitalidade regressa ao tronco de madeira que se julgava apodrecido pelo Inverno. A ilusão não se extingue enquanto houver líquido quente a correr dentro das veias
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Vestir o guarda-chuva
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Aprender a ser mulher

A sensualidade que se exigia nos anos 60 e 70 para a mulher portuguesa era muito diferente da que se exibia lá fora. Enquanto a mulher estrangeira era melhor apreciada nua, a nacional era ainda uma senhora de família a aprender o básico dos básicos da feminilidade, como se depreende de recomendações como esta:
«Uma mulher deve tratar das unhas pelo menos uma vez por semana; fará parte da sua rotina, tal como tomar banho ou lavar a cabeça» (Século Ilustrado, 18-7-70, p.39)
O primeiro

Que rico consolo são as palavras de Augusto Abelaira (1926-2003) para quem vai começar:
«Tornei-me escritor em circunstâncias deveras caricatas: várias editoras se recusaram a editar o livro; uma porém reteve-o durante dois anos com a promessa de que o editaria; mas como se não decidia, resolvi fazer a edição por minha conta» (Notícias da Amadora, 23-3-68. p.5)
domingo, 18 de janeiro de 2009
Cortez The killer
A chuva eleva os mortos
A chuva cai, transformando cadáveres incendiados pelo fogo em pó, aniquilamento, humilhação, luto, cinzas. A memória dos finados, que pouco tempo antes se escondia por detrás de roupas queimadas, de pele carbonizada, eleva-se no ar em forma de fumo, ocupa todo o espaço ilimitado em que se movem os astros. Todo o céu é ocupado pela imagem de cada um dos defuntos. Nunca ninguém se lembrará de prestar homenagem a estas criaturas arruinadas por causa externa. Que restem algumas frases: os vossos dias gastaram-se, não voltarão a casa. Não abraçarão o pai e a mãe, o cão e o gato. O namoro prometido ficou por chegar, o mar revolto numa tarde de Inverno será visto por outro, o quentinho do quarto quando a água gelada bate no telhado ficará reservado a novas almas, não se apaixonarão novamente. Há-de haver alguém que passeie o cachorro que espera pelo dono. O passado está aqui, à vista de todos, a jurar que, por mais que se lhe peça para voltar, não acederá a clamores. Grandes e valiosos campeões de categoria inferior, o vosso interesse pelos destinos da pátria trouxe-vos o fim. Que as aves furadoras de nuvens vos aplaudam e vos transportem para uma realidade melhor.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Orgia Literária
O meu segundo texto no Orgia Literária tem como título «Quando a imaginação só acompanha a realidade» e anda à volta de um livro de George Orwell.
Explicando finais
Homem de sonhos
Marcello
Significados
Fé 2: Tentar pôr um automóvel sem motor a trabalhar.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Dos saltos
Do egocentrismo
O Meu Tio (1958), Jacques Tati

O meu problema com as comédias é o seguinte: dá-me sempre para a tristeza. Se envolver velhos e crianças piora.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
O poder dela
Sem mais espaço para o fogo
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O avião poderia cair

A lava movimenta-se

O soldado encostou-se a uma árvore. Não tendo bateria recarregável, a carne em decomposição consegue ser mais frágil do que uma formiga a tentar fugir da sola do sapato. A perna infectada pelo ódio de homens contra outros homens estava prestes a explodir. Estatelou-se no chão como se fosse um piano atirado do topo de um arranha-céus. Apareceu o pânico. O ferido quer resistir mas não dá para continuar a ser pedra depois da pancada do martelo. Cobertas de poeira, as mãos do soldado procuraram um cantil de água inexistente mas, não o encontrando, começaram a tremer. Pegou no revólver. Muito debilmente, desafiou-o com o olhar. Enfiou-o na boca com o dedo a tocar no gatilho. «Vou morrer, vou morrer», pensou. A lava movimentava-se no centro da Terra.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Moshé Dayan

Os melhores guerreiros são os piores amantes. Que o diga a israelita Ruth Dayan a propósito de Moshé Dayan (1915(1915-05-20)-1981): «Se ele fosse um bom marido talvez não fosse um bom soldado» (in Diário Popular, 12-10-69).
sábado, 10 de janeiro de 2009
Queda livre
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
A dureza a sair

Buracos em mim para saber como morres
- Millôr Fernandes, Pif-Paf (Diário Popular), 10 de Abril de 1968
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Aguenta, pedra
Não penses que, por teres perdido ontem, não perderás amanhã. O futuro chegará com mais tristeza do que alegria, com mais dor do que saúde, com mais pânico do que calma. Andamos em cima deste colchão aos amassos, a trocar saliva, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, um de nós ficará sozinho. Ninguém disse que vinhas para este planeta para ganhar. No dia em que te deram os parabéns por teres destruído um exército, deu-te vontade de chorar escondido debaixo dos lençóis. Por que te dói tanto acordar todos os dias? A faca está na mão, mata-te, rasga as veias dos pulsos, espeta o punhal no peito e desaba num rio de sangue. O martelo está na mão. Acerta na nuca, acerta, vá lá, não falhes, não dês esse desgosto a todos aqueles que te admiram. Massaja o osso com paciência e liberta o ódio de metal. Toma os comprimidos que acabam com os pensamentos tristes e desaparece, esconde-te debaixo da cama, que é aí que se sofre em segredo. Procura a mamã e volta a ter quatro anos. Estás a perder o tempo de ser feliz (finge que essa possibilidade existe), de sair da prisão, de partir as correntes. Estamos sentados numa cama à espera que nos chamem para o julgamento final. E a sentença virá: martírio eterno para os dois. E o inferno trará o seu sabor: o túnel vermelho, coberto de chamas, a queimar a carne, a querer sufocar. Quando o Diabo chegar, não nos saberemos esconder e seremos apanhados pelo fogo que tudo transforma em cinzas. Acabaremos transformados em pedra, na cova, agarrados um ao outro, confundidos, sem nos conseguirmos separar da terra e das larvas.
Uma paixão louca
Mas que confusão! Estou a olhar para a minha mulher e não vejo a cara dela. Vejo a carinha linda da empregada da tabacaria do café que frequento...! Sinceramente, Edwiges, dá-me um conselho para que tudo volte à normalidade! Estou farto desta aventura - porque é uma aventura, uma traição, sei lá o que é!
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
Atirar-te para o lago

Jonas invertido
The Godfather II (1992); Francis Ford Coppola

Mantém-te próximo dos teus amigos e ainda mais próximo dos teus inimigos.

