quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Da mentira

O problema da mentira é este: se disseres sempre que te chamas Virginia Woolf, mesmo que te amarrem a uma maca de hospício, chamar-te-ás sempre Virginia Woolf.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

From Dusk Till Dawn (1996), Robert Rodriguez

The Savages (2007), Tamara Jenkins

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eat Yourself

Se pudesse voltar atrás, mudaria tudo. Quando me perguntaste se me arrependia de algo, disse que me arrependia de tantas coisas que antes valia fingir contentamento. Nunca mais te vi. Seguiste o teu caminho e eu o meu. Recordo aquilo que desapareceu. O que fazemos quando nos sentimos enjoados de nós próprios? Se vomitar fosse a solução, passaria as manhãs agarrado à sanita. O nojo não descola. Os meus herdeiros não precisam de saber o nome do pai. Refugio-me na caverna para fugir da luz. O bicho a olhar para a mulher enterrada. O esquife de papel vegetal que o bicho tenta rasgar com as garras. Digo o teu nome, Eva. Voltemos ao momento em que cravaste o punhal no peito. O tempo contado ao contrário. As sombras falam, têm uma cara de mulher que diz repetidamente: «O fim não era aqui.» Dez anos contigo são dois minutos. Mesmo que tivéssemos partilhado um milénio inteiro, não teria chegado. Sei que muito mudou mas, se tivesse uma bicicleta, acompanhar-me-ias num passeio pelo campo? Rebolar no feno depois de roubar os cachos de uva da vinha do senhor que persegue jovens insolentes com uma enxada. Mastigar as uvas com o sol a bater na cara e cuspir os caroços. O mármore é pesado. Custa desenterrar um cadáver. A marreta não parte a pedra. O mármore fere as mãos. A testa não parte a pedra.

Não perdoar

Não lhes podemos perdoar
não somos capazes
aos pais não se pode perdoar
O crime de termos nascido
não se pode perdoar

- Thomas Bernhard, Simplesmente Complicado

Dúvidas

MALABARISTA

A vida consiste
em ir eliminando dúvidas

- Thomas Bernhard, A Força do Hábito

Esquece o resto


O mundo não depende de ti para continuar a girar, deixa-o em paz. Senta-te, reactiva a máquina de escrever, enche muitas folhas com palavras que só a ti importam, livra-te dos erros, das gralhas, enche as gavetas. O mundo continuará a existir sem ti, mas o teu mundo não é o mundo que se vê a partir da janela.

Barton Fink (1991), Joel e Ethan Coen



Ele tentava ajudar as pessoas encurraladas com tiros de espingarda na testa.

domingo, 27 de setembro de 2009

Tudo é tão mau




MÃE


Mas afinal estamos sempre a ter ilusões
Não acreditamos que tudo é tão sem esperança
que tudo é tão mau
Partimos sempre do princípio que tudo não seja tão mau
mas a verdade é que é
Pense as pessoas morrem
porque tudo é tão mau
porque a natureza é assim tão má

ESCRITOR

É o que eu digo na minha peça
as pessoas morrem porque tudo é tão mau

- Thomas Bernhard, No Alvo

Indivíduo isolado

MINETTI:

O indivíduo isolado

por mais que tenha razão
perde qualquer processo

- Thomas Bernhard, Minetti


Se estas palavras forem certeiras, terei de arranjar amigos.

Feiras



Os meus sábados costumam ser passados na Baixa a vasculhar os livros dos feirantes da rua Anchieta. Apesar dos esforços que tenho feito para não desperdiçar dinheiro, raramente volto para casa de mãos a abanar. Hoje, por exemplo, trouxe a poesia completa de Manuel Bandeira (edição extraordinária) por três euros.

sábado, 26 de setembro de 2009

Finian's Rainbow (1968), Francis Ford Coppola

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As cartas

Lembro-me de escrever uma carta a todas as pessoas que deixei para trás a explicar os motivos que me levaram a cortar com elas. Explicar que o passado é tramado, que um tipo sozinho é que anda bem, que a amizade é pura mas nem sempre pode durar, que os sonhos estão a ser perseguidos, que tenho vontade de recuar uns bons seis anos e de me despedir convincentemente de quem me tratou tão bem, que um dia tudo fará sentido.

Todas as noites

Um louco vem todas as noites gritar asneiras para a minha porta. Às vezes, quase a adormecer, penso que a minha consciência saiu de mim e foi para a rua manifestar-se.

Lord Jim (1965), Richard Brooks



Este mundo é mau, desorganizado e governado por sapos.

Martha Wainwright

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Partir a parede




O bicho queria comentar o momento político. Interessava-lhe falar sobre um grupo de jovens manifestantes do partido do «não ao desodorizante e ódio aos banhos». Mas sente-se triste. O estômago dá voltas e só lhe apetece esmurrar a parede com a testa, a ver se parte os tijolos com uma força que parece não chegar para vergar o destino.

Escuta

O bicho tinha uma namorada. Agora dorme com o telefone na mão.

Lamento

ARTEMIDORO:

(...)

Lamento de coração que a virtude não possa viver
Longe dos dentes da inveja.

- William Shakespeare, Júlio César

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Frantic (1988), Roman Polanski

Pensa demais, logo, é perigoso

Cássio lia muito, era bom observador e sabia avaliar as acções dos homens. Dele dizia Júlio César:

Só quero à minha volta homens nédios e luzidios,
E que durmam toda a noite.
Aquele Cássio tem um aspecto magro e esfomeado.
Pensa demais. Homens assim são perigosos.

(William Shakespeare, Júlio César)

Como vai a vida?



Quando voltarem a perguntar-lhe como vai a vida, o bicho ajoelhar-se-á no chão, abrirá a arca dos gritos profundos e dirá que não, que a vida não vai nada bem, que é uma miséria, que precisa de muitos mimos.

Das horas de cama em falta

O bicho devia deixar de agir como se dormir não fosse uma necessidade fisiológica. É muito triste ver um animal (com olheiras do tamanho de cavernas) bater com a testa no prato da sopa.

A fundação do império

Depois de recriares vários universos, crias o teu.

Peggy Sue Got Married (1986), Francis Ford Coppola

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lagartixa

O bicho abriu uma janela para contemplar a primeira manhã solarenga de Outono. Uma lagartixa aproveitou para entrar em casa. O bicho tentou dar-lhe cacetadas com uma vassoura. A lagartixa escondeu-se dentro do esquentador. O bicho abriu a torneira da água quente e espalhou o fogo.

Irving Kristol (1920-2009)



Leia-se o texto de David Brooks.

Reservation Road (2007), Terry George

Subversão na Avenida 5 de Outubro

Ao encontrar um simpático poeta subversivo na fila do supermercado, o bicho pensou que era preciso ter coragem para concretizar o sonho de viver do que se escreve (e para não cortar as unhas, nem lavar a roupa, nem tomar banho).

Irina Palm (2007), Sam Garbarski

domingo, 20 de setembro de 2009

A bola

Não vás jogar à bola se souberes que do outro lado está um amigo. Não uses a força para tirar uma bola fácil. Não desloques um dos dedos do amigo. Não o ponhas a chorar. Segue as regras de Sun-Tzu: quando souberes, finge que não sabes. O amigo tem o dedo inchado. Perdeste o telemóvel. Ainda há o autocarro para apanhar. O suor a escorrer para cima da velha pindérica de tanta vaidade. Olha o pé do amigo: desvia, desvia, desvia, sai da frente, depressa, esconde-te. Acertas-lhe com força. Manda-lo para o hospital. Dormes durante o resto da tarde.

Dois cá de casa

Eis o vídeo de Thom Yorke realizado por David Lynch

sábado, 19 de setembro de 2009

The Element of Crime (1984), Lars Von Trier

A morte do pai mau

A RTP 2 transmitirá esta noite o genial Magnólia. Nunca nenhum actor chorou melhor do que Tom Cruise neste filme.

Nihilismo

Nada existe (...).Se alguma coisa existisse seria inapreensível e, se apreensível fosse, seria incomunicável e ininterpretável.

- Padre Manuel Antunes, Obra Completa, Theoria: Cultura e Civilização, Volume III Filosofia e Cultura

Eu digo que vivo no século XVI. Alimento-me de analogias e pretendo decifrar um texto imenso que tem um sentido misterioso.

Segundo a minha conselheira musical, a rapariga tem futuro. Gostei do concerto no Parque Mayer.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Não a encontras


Seguir o link para ver mais imagens.

Adam vasculha as gavetas à procura de uma fotografia de Eva. Passou muito tempo desde a última vez que a viu, tempo a mais, mas um homem não se deve sentir culpado por ter sido atingido por um raio que lhe iluminou o templo das recordações. Não há nenhuma fotografia da rapariga, nem um recorte que comprove que, num dia remoto, a cara que hoje é triste foi feliz. Não há um único retrato da dama que ofuscou todas as outras que vieram depois. Quando ela desapareceu, os lugares e as pessoas secaram. O riu secou, os peixes morreram e a areia invadiu as casas. O desaparecimento de uma mulher matou o mundo. Adam desiste de procurar fotografias. Abrir as gavetas foi um impulso, como todos os outros, irracional. Saber que a imagem não existe e, mesmo assim, tentar achá-la. O homem é um macaquinho que, aos primeiros sintomas de saudade, se comporta de acordo com a sua verdadeira natureza. Não reflectir. A mão a tapar os olhos que vertem lágrimas. O macaquinho dá cabeçadas na parede, como se com isso apagasse o que está a sentir. Os dedos apertam a garganta para impedirem a saída dos soluços. Os pensamentos chegam confusos: «Não vás. Tenho de ir. Não sei que fazer sem ti. Para mim, nada mudou. Subi a montanha mas deitei tudo a perder quando mergulhei para dentro da avalanche. Onde andas? Não vejo luz.»

Houve uma noite em que ela se fartou e partiu sem dizer para onde ia. Ele ocupou os dias com actividades que não o fizessem pensar num sorriso de mulher numa tarde de calor. Mas os trovões são rápidos e, quando acertam na árvore, racham-na ao meio.

On the Waterfront (1954), Elia Kazan

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

As derrotas

Gostaria de um dia poder vir a dizer, como os meus compatriotas, que «perdi de cabeça erguida». Para mim, uma derrota é sempre uma catástrofe, traz o caos, a vergonha. Se conseguisse imitar os meus compatriotas, transformaria cada humilhação em vaidade, ajeitaria a gola da camisa e sairia de campo a pensar que a goleada sofrida foi uma quase vitória. Mas eu não posso perder, não sei perder, não quero perder.

Telefone Mudo 2



Atendo todas as tuas chamadas, dando-te silêncio em troca de silêncio. Não pergunto quem é, não suspiro. Quando acordo aborrecido, como hoje, desligo o telefone para que percebas que o meu humor não é dos melhores. No dia seguinte, já com o aparelho ligado, volto a ouvir a tua voz que não fala.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Rebel Without a Cause (1955), Nicholas Ray

Telefone mudo

Uma pessoa liga-me todos os dias à mesma hora. Não fala mas sei quem é. Também não falo mas a pessoa sabe que sou eu quem está do outro lado da linha. Com o tempo, as nossas conversas acabaram por se resumir a isto: duas bocas fechadas a tentar ouvir uma voz que morreu.

Ilusão

O mundo arde. Dão-te a oportunidade de saltar da ponte. Decides ficar e arder. Pensas que, se conseguires ir fugindo do fogo, acabarás por encontrar uma salvação. Iludes-te.

Descanso

Se quiseres ler sossegadamente dentro de um café, não entornes um copo de água em cima das pernas de uma senhora muito histérica.

Padrinhos

A certeza da sua superioridade não o tranquilizava - porque enfim em Portugal, não é verdade? nestas questões a ciência, o estudo, o talento são uma história, o principal são os padrinhos.

- Eça de Queirós, O Primo Basílio

Tess (1979), Roman Polanski

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Miami Vice (2006), Michael Mann



Colin Farrel aparece todo pintarolas e canastrão mas não chega aos pés de Don Johnson (se calhar, chega).

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Recomeço

Sê optimista: o Inferno só recomeçará quando tiveres de sair da cama.

'You Cheated Me'

Ela vai dançar com outro. Não a beijarás. A cabeça dela encostada ao ombro dele. Ela dizia às amigas que era contigo que queria casar, que eras o tal, o escolhido. Mandava-te cartas dizendo que não aguentava a distância, que queria ter-te por perto. A traição traz impotência. A imagem dela no ombro do outro não desaparece. A vingança não elimina o sofrimento. Se viesses a descobrir por terceiros que eras enganado, poderias atirar areia para os olhos e dizer: «Perdoo-a.» Se não tivesses assistido a nada, negarias tudo para abraçá-la. Estás no baile. Ela vai dançar com outro. Um outro que atinge o estatuto de inimigo número um. Rival a abater. A boca dela no pescoço dele. O queixo barbudo dele na maçã do rosto dela. Contemplas a cena e não podes negar. Vês a satisfação na cara dela. É com muito gosto que aquela que te prometia o mundo te trai. Procura soluções para evitar o pânico. O remédio é colocar algodão nos ouvidos para evitar a cantiga do ladrão, pregar uma mola no nariz para fugir do cheiro, tapar a boca para que o fruto mais apetecido não queira atacar com os lábios, fechar os olhos para que a visão da cama não impeça o cérebro de funcionar. Queres dançar com ela. O ciúme é forte. A raiva junta-se à mágoa. A vontade de matar confunde-se com o desejo de morrer. Ela olha para ti. Pensas: quero matar-te, quero matar-te. Ela avança para ti. Pensas: quero morrer, quero morrer. Ela põe os braços à tua volta: afasta-te, não quero, não prestas, fazes-me mal, deixas-me triste. O cheiro da carne dela enfeitiça-te: esqueço tudo, não vi nada, só tu importas.

O nome das coisas

Bolaño, para os «parâmetros actuais», teve uma «vida fodida» e, para estranheza da multidão de lambe-cus que anda por aí, não só nunca se queixou como soube tirar proveito.

Um livro a evitar


Caro leitor, se um dia passar por uma livraria e se sentir tentado a comprar D. Maria - A biografia da rainha que teve a coragem de despedir o Marquês de Pombal, resista. Esta hagiografia não é uma biografia. Não existem dados que permitam reconstituir com clareza a vida e o tempo de D. Maria I. Os dados apresentados por Alexandre Honrado (acredito que seja uma excelente pessoa) ou limitam-se ao básico (àquilo que se pode encontrar numa wikipédia) ou passam para o mundo das generalizações bacocas. Eis algumas das notas que tirei ao longo de meia-hora de leitura deste livro de cerca de 140 páginas:

- Há falta de método;

- O autor pronuncia-se sobre diversas temáticas sem nunca explicar/aprofundar;

- A abordagem é superficial. O que é isto? Era bonita, Maria, mas a mais bela das irmãs era decerto Maria Benedita. E isto? Maria acabará por ter um casamento feliz e enternecido com o seu tio Pedro;

- A escrita é demasiado coloquial (por exemplo, a omnipresença das reticência leva a que qualquer um perca a paciência);

- Várias das questões tratadas são irrelevantes (não vale a pena dizer que o Iluminismo foi isto ou aquilo);

- Passa ao lado da história política, da cultura, da economia, da sociedade, etc.

domingo, 13 de setembro de 2009

Cristóvão Colombo - O Enigma (2007), Manoel de Oliveira

Primo huno

Fui a um bailarico de aldeia. Levei comigo um primo de onze anos que tem comportamentos de huno. O meu primo huno viu a rapariga que o faz suspirar na escola a dançar com outro. Foi ter com ela e sentenciou: «Esquece.» Devia aprender com o primo huno.

Bola



Não durmas quatro horas. Não acordes cedo para dar pontapés numa bola se souberes que acabarás mais cansado do que devias. Não convides amigos para assistirem à tua queda. Tem cuidado com os velhinhos e com as crianças, ninguém é culpado pela tua falta de pontaria.

One From the Heart (1982), Francis Ford Coppola

sábado, 12 de setembro de 2009

Optimismo

O primeiro-ministro diz que nenhum pessimista ganha uma guerra. Nunca conheci Churchill ou Napoleão mas parece-me que nenhum dos dois era optimista. O que me parece é que nenhuma vítima ganha uma guerra.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ran (1985), Akira Kurosawa



Quando a carne apodrece, mesmo que seja a nossa, há-que amputá-la.

Império à Deriva



Império à Deriva é um livro de história mas não é um livro de história escrito à maneira nacional. Acompanha-se as aventuras de D. João VI e familiares no Brasil como se estivesse a ler um romance. Veja-se, por exemplo, como Patrick Wilcken conta como surgiu o «Grito de Ipiranga»:

Sofrendo de um ataque de diarreia, D. Pedro fez uma paragem não prevista junto de uma ribeira chamada Ipiranga. Aí, enquanto abotoava as calças, recebeu um mensageiro que vinha de S.Paulo com correio urgente. Trazia-lhe uma série de cartas - uma de D. Leopoldina e outras de José Bonifácio, bem como relatórios oficiais das cortes de Lisboa. Lendo tudo, o retrato era claro. Sete mil soldados estavam a ser preparados em Lisboa para seguirem para o Brasil. Tanto D. Leopoldina, que se tornara uma apoiante ardente e influente do movimento pela independência, como José Bonifácio defendiam que se tinha atingido o ponto sem retorno. A 7 de Setembro de 1822, D. Pedro arrancou as insígnias portuguesas do seu uniforme e atirou-as ao chão. Desembainhando a espada, proclamou: «Independência ou morte! Separámo-nos de Portugal!»

A queda do velho

O velho caiu. As pessoas olharam para ele com indiferença. O velho levantou-se sozinho. Cravou as unhas nas pedras da calçada para poder ter energia nos joelhos. O velho era doente. Dormia com uma máquina de oxigénio. Tomava quinze comprimidos por dia. Era frágil. Enquanto sacudia o pó das calças, pensou: «Não sirvo para nada.» Estava revoltado por não o terem ajudado a sair do chão. «Nem me perguntaram se estava bem. Quero morrer. Juventude, infância, velhice, está tudo nos anos. A única coisa que realmente não desaparece é o tempo. Nunca me abandonou, o tempo. Tornou-me decadente.» Voltou a cair. Tropeçou e bateu com a testa na calçada. Desmaiou. Ninguém parou para ajudá-lo. Pensando que chegaria atrasado ao trabalho se se desviasse do seu trajecto, um sujeito muito apressado passou por cima dele. Quando o velho acordou, era noite escura. Não se via vivalma. Passou a mão pela testa. Muito sangue nos dedos. O sangue vermelho e quente na pele. «Não matou.» Levantou-se, sacudiu-se e voltou para casa.

11 de Setembro de 2001

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Angels with Dirty Faces (1938), Michael Kurtiz

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Loulé 2

Em D. Pedro V - Um Homem e um Rei, Ruben Andresen Leitão (Ruben A.) pinta o inefável Duque de Loulé do seguinte modo:

Ele não valia nada.

You must not forget anything

Esta é a frase com que Philip Roth termina Patrimony. You must not forget anything. Guarda tudo dentro da memória porque, no dia do julgamento, o teu pai estará lá em cima para te dizer se o tempo que perdeu a ensinar-te em vida teve alguma utilidade. Não te esqueças: escova os dentes, penteia o cabelo, trata bem os outros meninos, sê forte na doença, morre com dignidade.

Escolher a morte




No hospital, Philip Roth emociona-se perante o pai moribundo:

I leaned as close to him as I could get and, with my lips to his sunken, ruined face, found it in me finally to whisper, «Dad, I'm going to have to let you go.» He'd been unconscious for several hours and couldn't hear me, but, shocked, amazed, and weeping, I repeated to him again and then again, until I believed it myself.

(Patrimony)

Um filho cuida de um pai doente

There was my patrimony: not the money, not the teifillin, not the shaving mug, but the shit.

- Philip Roth, Patrimony

The Graduate (1967), Mike Nichols

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Fundo

Desceste ao fundo. Pensas que não é possível descer mais mas amanhã verás que é.

Cefaleia

O bicho tem uma dor de cabeça insuportável. As picadas nas têmporas. As veias a serem puxadas para fora pelas garras do lobisomem. O bicho visitou o passado e quis beber muito, muito, muito, para voltar aos quinze anos, às borbulhas e às meninas escondidas atrás da escola. Depois, veio a cefaleia.

domingo, 6 de setembro de 2009

Adjectivos bons

Ao contrário do que defendem os fanáticos da objectividade, a adjectivação, quando bem empregue, pode ser um bom recurso para o cientista social. Atente-se no seguinte excerto de D. Pedro V - um Homem e um Rei, de Ruben Andresen Leitão:

«Tudo o que o rei pensava, tudo o que tentava fazer, caía sistematicamente nas mãos adormecidas e peganhentas dos seus Ministros.»

sábado, 5 de setembro de 2009

White Heat (1949), Raoul Walsh

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Afundar

Passou muito tempo mas continuas a afundar-te. Achas que durará para sempre. A sensação de ir ao fundo. Engolir cada vez mais água.

A ler




Na imagem da capa deste livro, Philip Roth é um menino muito pequeno (4 anos) que não imagina que, dali a muitos anos, terá de acompanhar o pai de 86 anos até ao caixão.

What cemeteries prove, at least to people like me, is not that the dead are present but that they are gone.

Loulé

Depois de em Fontes Pereira de Melo ter pintado um retrato caricatural do duque de Loulé, Maria Filomena Mónica volta a fazê-lo em D. Pedro V:

Loulé iniciara a sua vida como militar, mas jamais se destacara no campo de batalha. Durante a Vila-Francada (1823), acompanhara D. Miguel, de quem depois se viria a separar, tendo-se exilado, em 1828, em Inglaterra. A sua juventude ficara marcada pelo assassinato do pai, em 1824, pelos esbirros de D. Miguel. Uma vez no exílio, optou pelo campo liberal e, dentro deste, pela sua ala esquerda. A seguir ao termo da guerra civil, foi, por várias vezes, ministro, em pastas onde não deixou marca. Aderiu vagamente à «Revolução de Setembro», tendo-se seguido uma década de apagamento, o que lhe valeria uma fama de indolência. Ainda apoiou a Patuleia, mas o gesto esgotou-o.

Fallen Angel (1945), Otto Preminger



Love alone can make the fallen angel rise.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Epidemia

Ao abrir um livro poeirento na biblioteca, tive de reprimir um espirro. Senti novo espirro a vir, tentei silenciá-lo mas o meu pensamento hesitava: «Não o faças, não não não, faz faz faz, não aguento, não posso, rebento se não espirrar, mas não posso, tanto posso que o faço.» Depois do «atchim», vieram os olhares reprovadores, os narizes torcidos que me lançavam a palavra «epidemia» à cara. Estive para me defender, argumentando que não era grande admirador de livros cobertos de pó, mas não valia a pena.

Biblioteca



A Biblioteca Nacional é um sítio agradável para fugir ao Verão e a tudo o que ele traz (o calor, a cidade vazia, os odores corporais), por isso, para lá irei acabar a leitura da biografia de D. Pedro V, da autoria da intelectual que mais vírgulas emprega nos seus textos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Gardens of Stone (1987), Francis Ford Coppola



O Soldado poderia acabar assim, a olhar para ela.

Viciante



Dando continuidade a uma corrente, o Samuel Filipe considerou este blogue «viciante». Embora não seja fascinado por estas coisas, como provavelmente ninguém será, acho que os blogues ganham força quando comunicam uns com os outros. Aqui ficam as minhas dez escolhas:

- Memento (escrita mastigada mas de leitura rápida e, por isso, viciante);

- Os blogues que o J. L. Bértolo vai fazendo e apagando, com particular destaque para o Mictório Luzidio (não só gosto de seguir a depressão dos outros, como gosto de quem gosta de Godard e de Kar-Wai);

- casa de osso . Basta dizer que todos os dias lá vou ver fotografias da América, país que idolatro.

- Ene Coisas . O blogue deste grande sujeito.

- Desesperada Esperança . O blogue de um amigo que não gosta mesmo nada de correntes e que me faz temer pela vida.

- meia-noite todo dia. Nem sempre concordo mas fico sempre agradado com a irritação.

- Esse Bandido . O vício de falar de escritores que acabaram mal.

- Alter, o ego. Acima de tudo, os textos românticos.

- Meditação na Pastelaria.

- Elefante Branco.




No fim, 3 objectivos ( a curto prazo) necessários para completar o ritual:

- Continuar a escrever.

- Continuar a ler até sair de casa ceguinho.

- Rentabilizar as insónias.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Desordem

In a review of the relevant literature it is shown that happiness is statistically abnormal functioning of the central nervous system.

- Philip Roth, Sabbath's Theater

Classifique-se a felicidade como uma desordem mental agradável.

Down The Line

Tardes



Everybody masturbates in libraries. That's what they're for
.

- Philip Roth, Sabbath's Theater.

Naquelas tardes de biblioteca em que os meus olhos não se fixam no computador mas nas pessoas que me rodeiam, vejo muitas mulheres coradas, com cara de caso, olhando obsessivamente para cada macho que passa. Bem vejo que as mulheres que estudam pensam tanto em sexo quanto os homens que estudam.